October 29, 2009
May 26, 2009
Asia
Enquanto o ônibus fazia seu curso preguiçosamente na castello branco, eu olhava pela janela hipnotizado pela promessa de chuva que só no transito havia se concretizado. Lento, carregado e eu ladeado por gente chata, que fala alto, ouve alto e mastiga alto. Nessa crônica diegética eu entro com toda minha preguiça de pensar na minha existência, no buraco de fundo intateável ao qual recuso ver. E descer.
É evidente minha descrença em coisas materiais, pois, quando se apunhala a carne se prova a covardia de quem empurrou a faca, e a força inigualável que faz o buraco se fechar. O problema está nos cortes internos. Parece que seu pulmão tem um ladrão de oxigênio…
Batista. É o que estava escrito no crachá do motorista. E pelo que pisa no acelerador parece mais chateado com a vida do que eu. Por que tanta preguiça homem? Não quer chegar, ou, como eu, gostaria de entrar no primeiro retorno? Se for isso, podemos armar um plano…
Sigo olhando a janela, sem saber o real motivo da lentidão do motorista do ‘halley’, e , sem saber ao certo o que fazer com minha lentidão de espírito. Ainda quantas guitarras vou quebrar nesse exorcismo de angústias? Não sei, mas aqui, nesta poltrona de vista cinza, eu travo meu duelo com minhas cinzas e com todas as outras coisas que querem me queimar. E saco da manga algo sempre guardado como minha vida. Como a foto que o presidiário tem embaixo do travesseiro, tenho algo aqui, dentro, que nem de longe as cinzas podem sujar. Bem que eu poderia contar, como este detento, os dias que passo por estes perrengues. Ainda mais se, como este preso, eu , a partir desta contagem, puder saber quando tudo acaba. Quando o vento deverá soprar por estas bandas e limpar tudo. Só assim, isso que guardo terá um espaço de igual valor.
Gotas na janelas. Tudo bem, pode chover. Nesta viagem curta, aceito a paisagem que janela me der, afinal, no filtro da minha cabeça as coisas se acertam. Ganham contraste e, acima de tudo, se iguala ao que guardo no peito. Minha foto preciosa, embaixo do meu travesseiro de tristezas.
May 17, 2009
May 15, 2009
Darnton.
Tem sido a faca entrando de-va-gar na carne. O calor que se sente após o corte feito, maior que a dor. Sim… pela forma seca que tem sido o choro, nada de muito visível se fez presente. Mas está lá, minando tudo, desfazendo as pilastras internas. O pé-direito-canhoto pisou em falso, e agora manca. Engasgou com a tragada do cigarro e quis cuspir o pulmão.
Melhor dar uma volta, chutar umas pedras… atirar outras. O homem moderno é um cara financiado, que compra em suaves prestações sua escravidão. Rindo. Exibindo cada elo de sua corrente em seu navio negreiro tunado.
Ouvi dizer, por esses dias, que numa entrevista de emprego, usar sapato usado é um pecado mortal. Seu valor começa na sola que, se gasta, fica ali mesmo. Mas fiquem tranquilos, a calça jeans está praticamente liberada: agoras elas tem grife e status suficiente. E tudo isso está nos livros sobre RH, basta dar uma fuçadinha. Tentei dizer que isso era preconceito, mas me disseram que não compreendi direito o tema. Acho que perdi mesmo algo. Metade dos pontos que a porra da atividade valia.
_Rodrigo, e se o massacre dos gatos fosse hoje?
_Não rolaria, são bem apessoados demais. Que tal o jardineiro?
May 7, 2009
Não tem nada…
O Último Fim
Poderia ser um silêncio surdo
Ou um silêncio mudo
Era um silêncio surdo-mudo. Comunicava-se por sinais. De fumaça negra dos nossos corpos carbonizados num lugar remoto de algum país africano em uma pequena foto no meio do jornal de dois meses atrás. Ou fumaça branca dos nossos corpos congelados num lugar remoto de algum país escandinavo, os dois muito bem vestidos com as peles de animais mortos carbonizados num lugar remoto de algum país africano, em uma grande foto na capa do jornal de amanhã.
É preciso denunciar, renunciar, fazer constar, anote logo aí por favor: um grande amor acabou assim. Sem desgaste, acusação, grito, pedra arrancada do calçadão e cravada no olho, nada. Acabou como uma bolha de sabão uivando no semáforo num dia de blecaute. Acabou como uma vaca pastando entre nádegas. Acabou como a suástica.
Não lia lábios, era um silêncio cego atropelando o engarrafamento e dando pras fuças do cemitério de São João Batista onde as sepulturas coincidentemente tinham as mesmas dimensões de cada um dos móveis da sua casa e estavam dispostas da mesma forma que aqueles daí ter sido tão natural caminhar por entre elas sem esbarrar em nada e deitar na cova aberta como se fosse a própria cama e usar como lençól a lama. Ou a morada sempre fôra um cemitério e agora que entrou na casa alheia e deitou-se de fato numa cama e cobriu-se mesmo com um lençól é que vemos que não há grandes diferenças entre a vala quente, a cama fria, a vala rasa, a cama funda, a vala limpa, a cama imunda…
Era um silêncio cego e o cão-guia era O Cão, Satanás, Jesus, Maomé, Moisés. A coleira puxava como se atada ao pescoço da vaga do mar e quando esta vaga laçada chegou à beira-mar havia um casal ali rolando num filme boca contra boca e Silêncio Cego repousou ali nos espaços da boca contra boca fazendo contorcionismos para não esbarrar nas línguas contra línguas e lentamente destilou um gosto amargo azedo mal gosto e eles só pensavam ainda bem que é só um filme e assim que o diretor gritar corta este beijo acaba este casal acaba este amor de filme acaba e eu volto pra casa pra beijar minha esposa que tem um beijo saboroso como nos filmes ou eu vou pra rua procurar um beijo gostoso como nos filmes ou eu vou ficar sozinha imaginando sonhando fazendo um filminho na minha cabeça do dia que eu vou ter alguém para me beijar e o nosso amor vai ser mais importante que o gosto do beijo que pode variar que vai variar porque o nosso amor será eterno e no amor eterno cabe beijo gostoso e beijo azedo beijo saboroso e beijo amargo até mesmo beijar pensando no ator ou na atriz do filme
Um dia tudo era perfeito e este dia durou anos. Mas, audácia, dias não são anos, e a perfeição é uma bola negra se formando no céu da boca à cada sorriso. Sorriu, o câncer cresce. Gargalhou? Vira maligno. Não pense em gozar.
A perfeição é um milagre desdentado, sem fé e sem dinheiro. A perfeição é um susto.
Como uma vaca num pasto de cristal. Na noite seguinte, um domingo, não pôde mais, acabou. Acabou como se o seu vizinho fôsse você mesmo e assim infinitamente até que você estivesse do outro lado do mundo, puto porque não consegue dormir por causa de você aqui puto e insône. Mas, caralho, como é que eu poderia me incomodar só porque não consigo dormir? Por que é que eu não dormiria em paz lá ou aqui só porque não consigo dormir em paz aqui ou lá?
Acabou como o rabo da maior boazuda do país daqui há setenta anos. Pronto. Fui claro. Como se não tivesse existido. Como se fôra nada. NADA. E não o nada completo, mas um nada… com sardas, um nada com som de comida mastigada, um nada que não passou protetor e dormiu na praia era verão teve arrastão e o brasil perdeu o ônibus passou choveu pneu furou o assaltante era mau… Um nada descamado, farfalhante, monoglota, empoeirado e alérgico. Um nada que contando ninguém acreditaria, mas é verdade. Como é possível.
Era um silêncio perneta deixando seu rastro e o toc-toc insistente da muleta com a boarracha descascada na escada de madeira velha da casa abandonada e ruidosa. O silêncio não estava portanto no mundo. Nem dentro deles. Era entre eles. Em qualquer latitude ou longitude que se encontrassem, à qualquer distância, o silêncio estaria ali, menos como amortecedor, anteparo, blindagem, preenchimento, mais como vazio, vão, buraco, cu. Entre eles para sempre haverá esse cu. O tamanho do cu dependerá da distância entre eles. Se estiverem longe, um cuzão. Se estiverem perto, o cuzaço.
Da noite para a noite, o continente afinou, fez-se ilhota vaga vesga rôta rata, e boba derreteu, escabrosa afundou. O chão sobre o qual se pisava, onde as unhas dos pés cravavam na hora de dormir, de onde uma semente de floresta foi cuspida, aquele recanto martelando contra o mundo, o sonho besta mesmo, um sorvete perfeito com sua bola prateada, o sonho cor de rosa da boceta molhada pau latejante, tudo pra ontem porque o futuro é nosso, aquele negócio ali, foi para a puta-que-o-pariu.
Esta é a triste verdade, leitora. Esta é a triste mentira, leitor. O amor é porco. Te come e arrota na cara. Teu enjôo tem nome: chame-o apenas amor, que o fim será todo seu.
Estava escrito nos gomos pontiaguados da tangerina e você não viu. Era aço ali. Estava nas estrelas cortantes e doces. Tava na tua cara, mané, desde o princípio da vida até. Era um silêncio retardado. Esmagando as borboletas de ar no ar e desavisado que visse a cena não entenderia esta farsa, picharia a dramaturgia, vomitaria as referências mesmo que aquilo fosse original, único, inédito, não importa vomitaria as referências e você querendo inaugurar, pela 1a vez na américa latina, não perca, venha toda, o blablablá de sempre.
Porque a gente pega as coisas na mão e sente a sua substância, seu peso e consistência. Porque não é plausível que as coisas mintam. Que um cinzeiro te olhe e diga eu sou um cinzeiro e você veja que é um cinzeiro e não seja um cinzeiro. Como é que você poderá encarar o leite depois? E o abajur? A mesa? A porta? Você é uma porta? Por favor, me prometa ser uma porta para sempre. E o silêncio mongol esmagando a porta, a mesa, o leite e o cinzeiro.
É claro que eu sei que a porta vai virar cinzeiro e depois mesa e depois leite. Não se trata disso. Mas da porta dizer que será sempre porta e anos depois ver algum reflexo diferente no leite, só isso. Uma sensação vaga das conquistas alheias e ponto.
E olhando aquilo tudo cagado escapa um riso ignominioso, de escárnio. Um riso que era na verdade um olhar que escapava pela boca.
(um parentesis: se te disserem que deja vu é falha de sinapse tampe os ouvidos, não acredite é coisa de desertores, dedo-duros, gente mesquinha. Eu coloquei uma farpa entre cada neurônio e a sensação é completamente diferente)
Era coisa para se aprender agora mesmo, na hora certa e tesa, zunindo na orelha do alvo e cravando o erro no queixo. Já pensou? Aquele esparadrapo sobre os cabelos do braço há três dias? Vai arrancar de uma só tocada ou vai ficar pinicando as bordas? O silêncio precisa de emissor e receptor. O silêncio é do século passado. Agora é amor. E o amor não é nada. O amor é uma piada esperando uma desgraça para ser inventada.
O amor é uma piada esperando uma desgraça para ser inventada.
O amor é uma piada esperando uma desgraça para ser inventada.
O amor é a pirâmide para quem nunca falou da antiguidade com amor.
O amor é a pirâmide para quem nunca falou da antiguidade com amor. O amor é este texto se eu tiver coragem de deletar este texto. Mas não tenho. Porque me falta amor. Mas posso te oferecer este silêncio. E te garantir que é o melhor da praça – e a praça está cercada. É o que mais sai – e não há saída. Ninguém nunca voltou para reclamar – porque ninguém aqui é bobo para não ver que reclamar traz o verbo amar embutido. Este silêncio é o melhor. É o campeão. Não vê o brilho nos olhos dele? É a autoconfiança de quem vai pra briga – no sentido figurado, porque porrada de verdade, soco no olho, é amor. E eu não vim aqui para te falar de amor. Estou aqui para interromper o silêncio. Por alguns breves segundos porque eu sei que é impossível. Porque aqui, sou apenas palavras sobre uma página. E isso também é amor. Deste modo, não há remédio senão calar.
Era um silêncio suicida. À espreita de um grito, rajada, freada, sirene, explosão.
Era um silêncio porra. Um silencio me desmentindo a cada segundo. Tornando este texto minha maior mentira.
Gotejando da palma da minha mão.
Não tem nada…
O Último Fim
Poderia ser um silêncio surdo
Ou um silêncio mudo
Era um silêncio surdo-mudo. Comunicava-se por sinais. De fumaça negra dos nossos corpos carbonizados num lugar remoto de algum país africano em uma pequena foto no meio do jornal de dois meses atrás. Ou fumaça branca dos nossos corpos congelados num lugar remoto de algum país escandinavo, os dois muito bem vestidos com as peles de animais mortos carbonizados num lugar remoto de algum país africano, em uma grande foto na capa do jornal de amanhã.
É preciso denunciar, renunciar, fazer constar, anote logo aí por favor: um grande amor acabou assim. Sem desgaste, acusação, grito, pedra arrancada do calçadão e cravada no olho, nada. Acabou como uma bolha de sabão uivando no semáforo num dia de blecaute. Acabou como uma vaca pastando entre nádegas. Acabou como a suástica.
Não lia lábios, era um silêncio cego atropelando o engarrafamento e dando pras fuças do cemitério de São João Batista onde as sepulturas coincidentemente tinham as mesmas dimensões de cada um dos móveis da sua casa e estavam dispostas da mesma forma que aqueles daí ter sido tão natural caminhar por entre elas sem esbarrar em nada e deitar na cova aberta como se fosse a própria cama e usar como lençól a lama. Ou a morada sempre fôra um cemitério e agora que entrou na casa alheia e deitou-se de fato numa cama e cobriu-se mesmo com um lençól é que vemos que não há grandes diferenças entre a vala quente, a cama fria, a vala rasa, a cama funda, a vala limpa, a cama imunda…
Era um silêncio cego e o cão-guia era O Cão, Satanás, Jesus, Maomé, Moisés. A coleira puxava como se atada ao pescoço da vaga do mar e quando esta vaga laçada chegou à beira-mar havia um casal ali rolando num filme boca contra boca e Silêncio Cego repousou ali nos espaços da boca contra boca fazendo contorcionismos para não esbarrar nas línguas contra línguas e lentamente destilou um gosto amargo azedo mal gosto e eles só pensavam ainda bem que é só um filme e assim que o diretor gritar corta este beijo acaba este casal acaba este amor de filme acaba e eu volto pra casa pra beijar minha esposa que tem um beijo saboroso como nos filmes ou eu vou pra rua procurar um beijo gostoso como nos filmes ou eu vou ficar sozinha imaginando sonhando fazendo um filminho na minha cabeça do dia que eu vou ter alguém para me beijar e o nosso amor vai ser mais importante que o gosto do beijo que pode variar que vai variar porque o nosso amor será eterno e no amor eterno cabe beijo gostoso e beijo azedo beijo saboroso e beijo amargo até mesmo beijar pensando no ator ou na atriz do filme
Um dia tudo era perfeito e este dia durou anos. Mas, audácia, dias não são anos, e a perfeição é uma bola negra se formando no céu da boca à cada sorriso. Sorriu, o câncer cresce. Gargalhou? Vira maligno. Não pense em gozar.
A perfeição é um milagre desdentado, sem fé e sem dinheiro. A perfeição é um susto.
Como uma vaca num pasto de cristal. Na noite seguinte, um domingo, não pôde mais, acabou. Acabou como se o seu vizinho fôsse você mesmo e assim infinitamente até que você estivesse do outro lado do mundo, puto porque não consegue dormir por causa de você aqui puto e insône. Mas, caralho, como é que eu poderia me incomodar só porque não consigo dormir? Por que é que eu não dormiria em paz lá ou aqui só porque não consigo dormir em paz aqui ou lá?
Acabou como o rabo da maior boazuda do país daqui há setenta anos. Pronto. Fui claro. Como se não tivesse existido. Como se fôra nada. NADA. E não o nada completo, mas um nada… com sardas, um nada com som de comida mastigada, um nada que não passou protetor e dormiu na praia era verão teve arrastão e o brasil perdeu o ônibus passou choveu pneu furou o assaltante era mau… Um nada descamado, farfalhante, monoglota, empoeirado e alérgico. Um nada que contando ninguém acreditaria, mas é verdade. Como é possível.
Era um silêncio perneta deixando seu rastro e o toc-toc insistente da muleta com a boarracha descascada na escada de madeira velha da casa abandonada e ruidosa. O silêncio não estava portanto no mundo. Nem dentro deles. Era entre eles. Em qualquer latitude ou longitude que se encontrassem, à qualquer distância, o silêncio estaria ali, menos como amortecedor, anteparo, blindagem, preenchimento, mais como vazio, vão, buraco, cu. Entre eles para sempre haverá esse cu. O tamanho do cu dependerá da distância entre eles. Se estiverem longe, um cuzão. Se estiverem perto, o cuzaço.
Da noite para a noite, o continente afinou, fez-se ilhota vaga vesga rôta rata, e boba derreteu, escabrosa afundou. O chão sobre o qual se pisava, onde as unhas dos pés cravavam na hora de dormir, de onde uma semente de floresta foi cuspida, aquele recanto martelando contra o mundo, o sonho besta mesmo, um sorvete perfeito com sua bola prateada, o sonho cor de rosa da boceta molhada pau latejante, tudo pra ontem porque o futuro é nosso, aquele negócio ali, foi para a puta-que-o-pariu.
Esta é a triste verdade, leitora. Esta é a triste mentira, leitor. O amor é porco. Te come e arrota na cara. Teu enjôo tem nome: chame-o apenas amor, que o fim será todo seu.
Estava escrito nos gomos pontiaguados da tangerina e você não viu. Era aço ali. Estava nas estrelas cortantes e doces. Tava na tua cara, mané, desde o princípio da vida até. Era um silêncio retardado. Esmagando as borboletas de ar no ar e desavisado que visse a cena não entenderia esta farsa, picharia a dramaturgia, vomitaria as referências mesmo que aquilo fosse original, único, inédito, não importa vomitaria as referências e você querendo inaugurar, pela 1a vez na américa latina, não perca, venha toda, o blablablá de sempre.
Porque a gente pega as coisas na mão e sente a sua substância, seu peso e consistência. Porque não é plausível que as coisas mintam. Que um cinzeiro te olhe e diga eu sou um cinzeiro e você veja que é um cinzeiro e não seja um cinzeiro. Como é que você poderá encarar o leite depois? E o abajur? A mesa? A porta? Você é uma porta? Por favor, me prometa ser uma porta para sempre. E o silêncio mongol esmagando a porta, a mesa, o leite e o cinzeiro.
É claro que eu sei que a porta vai virar cinzeiro e depois mesa e depois leite. Não se trata disso. Mas da porta dizer que será sempre porta e anos depois ver algum reflexo diferente no leite, só isso. Uma sensação vaga das conquistas alheias e ponto.
E olhando aquilo tudo cagado escapa um riso ignominioso, de escárnio. Um riso que era na verdade um olhar que escapava pela boca.
(um parentesis: se te disserem que deja vu é falha de sinapse tampe os ouvidos, não acredite é coisa de desertores, dedo-duros, gente mesquinha. Eu coloquei uma farpa entre cada neurônio e a sensação é completamente diferente)
Era coisa para se aprender agora mesmo, na hora certa e tesa, zunindo na orelha do alvo e cravando o erro no queixo. Já pensou? Aquele esparadrapo sobre os cabelos do braço há três dias? Vai arrancar de uma só tocada ou vai ficar pinicando as bordas? O silêncio precisa de emissor e receptor. O silêncio é do século passado. Agora é amor. E o amor não é nada. O amor é uma piada esperando uma desgraça para ser inventada.
O amor é uma piada esperando uma desgraça para ser inventada.
O amor é uma piada esperando uma desgraça para ser inventada.
O amor é a pirâmide para quem nunca falou da antiguidade com amor.
O amor é a pirâmide para quem nunca falou da antiguidade com amor. O amor é este texto se eu tiver coragem de deletar este texto. Mas não tenho. Porque me falta amor. Mas posso te oferecer este silêncio. E te garantir que é o melhor da praça – e a praça está cercada. É o que mais sai – e não há saída. Ninguém nunca voltou para reclamar – porque ninguém aqui é bobo para não ver que reclamar traz o verbo amar embutido. Este silêncio é o melhor. É o campeão. Não vê o brilho nos olhos dele? É a autoconfiança de quem vai pra briga – no sentido figurado, porque porrada de verdade, soco no olho, é amor. E eu não vim aqui para te falar de amor. Estou aqui para interromper o silêncio. Por alguns breves segundos porque eu sei que é impossível. Porque aqui, sou apenas palavras sobre uma página. E isso também é amor. Deste modo, não há remédio senão calar.
Era um silêncio suicida. À espreita de um grito, rajada, freada, sirene, explosão.
Era um silêncio porra. Um silencio me desmentindo a cada segundo. Tornando este texto minha maior mentira.
Gotejando da palma da minha mão.
March 31, 2009
Amargo
Tenho 20 minutos.
Escrever sem pensar muito… pensar nada.. nada.
Escrever.
Fluir.
Fruir.
Existe uma urgência no escrever que é um prazer que só aqueles que não calculam as teclas em que bater pode sentir. Escrever é para os não calculistas, o impulso move a escrita que move o ser que move…
Escrever queima a alma, aquece quem lê e sobretudo põe fogo no mais úmido dos corações. Coração molhado que espera a pieguice dos lúcidos, dos autossuficientes, daqueles que reagem mas rastejam de pé. Lance a pedra na vidraça que é os olhos de quem lê. Kafkafize por um minuto…
Tenho nove minutos…
Poderia fazer uma música, mas devanear ainda é bem mais gostoso. Cuspir, esporrar, verter. Construir com palavras um inferno particular, que deixe o céu com inveja e vontade de fazer uma fogueirinha com toda sua vaidade. Trazer uma escrita que inspire cores:
Areia e lilás sob a silhueta das fábricas…
E esta cena e as cores reproduziam com perfeição
O que poderia imaginar sobre dentro de mim aqui, hoje.
Tempo esgotado.
Não! Não!
Ainda dá tempo pra uma linha!
_Escreve pra mim?
March 27, 2009
Já que o assunto é conto…
Você não existe, ela diz ao abrir o apartamento, o sorriso projetando sombras nas paredes da sala, as chamas das velas dançando ao som de uma velha canção dos Stones, a mesa posta, o aroma de alecrim, vinho e rosas vermelhas. Você não existe, repete, imaginei que nunca fosse lembrar. Devolvo o sorriso, abro os braços e ela aceita o convite. Os longos cabelos deslizam pelo meu ombro, ensaiamos alguns passos, evito fechar os olhos como se fosse preciso guardar cada segundo desse momento. Dez anos. Finalmente eu quebro o meu silencio. Dez anos, nunca imaginei que ficaria tanto tempo ao lado de alguém. Ela ergue a cabeça, aproxima a boca do meu rosto, morde meus lábios e dali desce até ficar de joelhos abrindo com os dentes o caminho dos botões e zíper. Esqueço o jantar e não reajo ao ser engolido. A música abafa os meus gemidos. Não era pra ser assim, penso… mas foda-se. O discurso fica pra depois. Agora só quero puxá-la com força, deixá-la apenas de salto alto, encostá-la contra a parede. E mergulhar sobre sua pele. Sou seu banquete. Ela é meu banquete… somos pedaços de carne em um banquete. O banquete dos mendigos, dos famintos, dos desesperados por um segundo sem solidão. Um segundo que iniciou assim, ofegante e suado, e que, de repente, transformou-se em dez anos. Quantos segundos valem dez anos? Nós já tivemos demais, penso ao desabar em suas costas. Você não existe, mais uma vez ela fala, quero mais dez anos ao seu lado. Então é chegada a hora. Caminho até o aparelho de som, a ponto para capa de Exile On The Main Street. Você não acha estranho o fato de eu não gostar de nada que os Stones fizeram depois desse disco? , pergunto. Nua, ela se joga sobre o sofá e me olha com dúvida. Sério, continuo. Este álbum é de 1972, isso mesmo, 1972, e os Stones ainda estão aí, tocando, lançando discos, tá certo que uns são bonzinhos, mas depois de Exile On The Main Street nunca mais fora geniais, nunca mais tiveram aquela química. Escuta, ela fala, não estraga a noite, tava indo tudo tão bem. Não, digo, você não entendeu, isto aqui não é apenas uma comemoração. Ela tira os sapatos, coloca as pernas sobre o sofá e a poesia das suas curvas rimam novamente com meu desejo. Mas é preciso seguir em frente. Desculpe, encerro de vez o assunto, isto aqui não é apenas uma comemoração de dez anos, é uma despedida. Ela ri. É verdade, falo, queria apenas me despedir de você do jeito que a gente merece, assim, feliz. Você o que? Ela parece não acreditar. Olha, explico, sei que você vai me achar o maior filho de uma puta do mundo, mas estes dez anos foram tão bons quanto os primeiros dez anos dos Stones, e eu não quero ficar contigo mais dez anos e ficar lembrando que os dez primeiros anos eram muito melhores, ou pior, melhores e ponto final. Aproveito que ela ainda está sem palavras, em estado de choque e coloco minhas roupas. Tão seguro quanto no dia de nosso casamento, jogo meus discos dos Stones numa mochila, beijo sua testa com carinho, e abro a porta do apartamento. Você não existe, ouço-a dizer pela quinta vez na noite. E você, falo antes de sair de sua vida, você sempre será meu Exile On The Main Street.
December 14, 2008
Sim querida, comigo também.
Eu hoje vivi num sacrifício hercúleo. Parece que apanhei com veemência de uma pessoa que utilizava com destreza sem igual algo parecido com um taco de beisebol. Ou um cabo do picareta… O fato é que as coisas podres que carregamos nos batem a cada dia e eu apanho todos os dias já tem vinte anos. E isso cansa.
Cansa tanto que uma hora voce acha que não vai aguentar mais. E quer saber o pior? Você está certo. Esse ranço entalado quer sair e parece que a testa é o lugar predileto. A cabeça á explodir te diz: Sidan, caia. E caí vertiginosamente como nos sonhos, quando voce acorda nauseado de cair e nunca chegar. Eu já sonhei isso, e hoje isso deixa meu sono impossível.
Estou aberto á todas as hipérboles.
November 29, 2008
Encantado (Tudo)
É tarde. Sinto-me covarde, impotente para qualquer reação e pior que isso. Frisei – agora não mais de medo, mas da melancolia plena (depois de descobrir que ‘melancolia’ parece ‘melão colhia’ toda vez que escrevo a palavra me vem a imagem e então o cheiro e o gosto do melão e então ela arrefece) (a melancolia). Sento-me sobre mim mesmo e aguardo a mim mesmo. Uma moça me disse que eu era um bom partido e eu fiquei pensando que ela estava dizendo que eu era um bom estilhaçado. É possível alguma sabedoria boba? O estado da é alma dócil, indolente, e, fundamentalmente, estrangeira. Estou habitado pelo horizonte, pela partida, o apito de um trem sibila no meu peito, só agora descubro, porque a vida inteira achei que tinha asma. Não doutor, não se trata de asma, é o navio partindo, é a sirene da ambulânia, é o choro do bebê que fui e não reconheço nas poucas fotos que ainda tenho então fico me procurando nas fotos dos bebês das revistas, nas carrinhos empurrados pelas babás… Como era minha cara? Seria capaz de me encontrar entre mil bebês? Este texto tem de ser um registro fiel das minhas fuças. Mas, aqui, no horizonte onde nuvens negras dão rasantes e bufam – não se tratam de trovões, algo que me restou ainda são os olhos afiados por afoitos. Mas, aqui, enfim, resta esta ingratidão. E é por isso que essa foto sairá enegrecida. E é por isso que ninguém mais verá meu rosto em nenhuma folha de papel. Estou num labirinto de fetos. Há uma contradição entre a estampa que sou e o suporte. Um peso para papéis só terá uma grafia se repousar séculos ali. Mas aí o papel vira sonho e o sonho, bem sei, vira pó. Qual a serventia de um peso para pó? E com o tempo outro pó deitaria sobre o peso e sob qualquer lufada os pós se misturariam tornando impossível diferenciar o meu retrato e o tempo. É engraçado acreditar que estou calado há dias, quando tenho escrito ininterruptamente. Estou calado? Contra qualquer tentação de morrer num buraco sob minha cama, defendi com ardor – e imprecisão – o trabalho. Então o amor deveria ser isso, corpo e trabalho. Mas, querida, é bom sabê-la inteira na reta derradeira. Mas, como te disse, não tenho saído. Ando quieto, esquálido (a alma), sem alardes. Quem sabe para a semana… Um bom lugar… O fato é que casmurrei. Os últimos mêses arquearam-me os orgãos. Estou corcunda por dentro. Lordose emocional. Estou medroso e permanentemente cansado. Ontem traguei uns cigarros e não prevejo coisa melhor para hoje. Agora mesmo vou descer para pegar fósforos. Um momento, por favor. Pronto. Este gosto de morte atravessado na boca. Agora posso brochar em paz. Preciso apenas ficar atento quanto a dicção dos emails… Enfim, uma série de gratuidades que servem apenas à ponte entre esta casmurrice e a vindoura, quero dizer, uma falsa pausa no perpétuo. Meu amigo querido, que tanto amamos (eu e ela), me forçou contra uma janela. Disse-me que a derrota é inevitável. Ontem voltei a fumar. Não gostei do gosto, mas do ato sim, a fumaça subindo, desenhando uma lâmina afiada e cortando o ar do peito. Peito bobo. Acredita no ar. O ar é uma abstração pior que o amor (por favor, entenda, não tenho nada contra abstrações, ao contrário, vivo delas, mas são insuficientes para manter a vida como pode ver…). Amanhã eu paro. De respirar, fumar, amar, não importa, não há escolha possível. Parar, não importa onde. Como se fosse a lâmina, a fumaça, o cigarro e o otário, que deveras sou. Amanhã eu paro. Amanhã é inevitável… Eu estou bem. Sendo o meu ‘bem’ muitas vezes algo impreciso, daí muitas vezes contraditório. Mas algo me leva a crêr que estou bem, sim minha querida. De alguma forma sempre pronto para o porvir. Sempre esperando e por isso mesmo tinha parado de fumar, por conta deste otimismo dos que se privam. O sobrevivente vive crispado pela iminência do estampido, mas quando finalmente ele chega – ele sempre chega – de algo valeu o desespero. Uma vez mais aquela coisa toda do desejo ardente e do presságio, como diferenciá-los? Estou bobageando já. Se você pressente assim, é o bastante para que eu esfregue meus olhos e force a mirada novamente. Espero que a vida esteja sendo carinhosa com você. Sua força e doçura merecem. Ler você é ouvir sua voz e sua voz me esquenta o coração. Requenta, para ser mais simplório. Sim, as coisas tem caminhado. Passos imprecisos, às vezes pesados como o chão, mas parece-me que adiante (como já te disse). Seria muito bom brindarmos qualquer coisa e ler sua voz olhando nos olhos. Me diga se é possível e, assim sendo, quando. E quanto. Quero quantidade, já não me contento com qualquer coisa. Algo indiferente ao nosso amor está acontecendo entre nossos corações? Ela receia que sim. Ele e eu também. Eu não posso acreditar que sim até que você me mostre, me emprestando seus olhos, oferecendo suas mãos. Estou ficando extremado novamente. Uma gota de suor frio escorre rachando-me em dois. Desde que voltei, se tudo ainda continua estranho e temerário, a lembrança e certeza de você é uma das poucas coisas que me comovem e ajustam no mundo. Pois nossos encontros últimos foram tão afetuosos, delicados… E, aqui, incluo o meu com ela, pois este só se deu através de você. Preciso te ouvir. Com todo o respeito e a admiração que tramaram os fios da nossa amizade. Não posso compreender o que esteja acontecendo, pois não consigo aceitar que tenha faltado amor, e, assim, a delicadeza… Nosso encontro só se deu porque ele nos encantou. Estou tentando falar com ele. Realmente deve ser algum sereno resfriando os corações, a bruma na vida do mar, qualquer delicadeza ou poesia que de tão espetacular ao menor roído achamos que pode quebrar, enfim, o velho medo de um medo de um medo… Fiquei muito comovido com a força do nosso encontro. Porque foi encantado e esta palavra agora para mim é tudo.
